domingo, 24 de agosto de 2008

DISPERSÃO

Tenho vontade de renascer a cada dia,

Mas minha história só reflete rebeldia,

Camuflando esta sede insaciável de verdade,

Já agora acato esta monotonia

De simplesmente cobiçar o Céu

E sempre busco alguém que seja mel

E que me adoce a boca com palavras vivas.

Mas a vida me demanda tamanha dispersão

Que a caneta não acompanha nem a própria mão.

TARDE CHUVOSA

Despida de tudo, aninhada pela relva orvalhada de uma manhã fluorescente de primavera, sentia-me boiando no oceano da existência.

De lá, avistava montanhas em tons furta pastéis, o que me abriu o apetite.

Ergui-me, como uma bolha de madrepérola e me aproximei daquele lago que, de tão translúcido, quase não podia olhá-lo, sem deixar de ver as formas semelhantes à elfos, duendes e entes que nele se refletiam.

Boiavam sobre suas águas folhas secas de parreira, que transportavam pequeninos frutos semelhantes a amoras verdes esmeralda.

A cada um que delicadamente colhia e saboreava, percebia alterações na paisagem ao meu redor.

Experimentava, num espaço de tempo relativo, as mais variadas e ilimitadas formas de universos, até que me apercebi cercada por curiosas criancinhas, de cabelos muito longos e cacheados, de um olhar ultravioleta quase irresistível, que gesticulosas e interrogativas apontavam para algo que de mim emanava, como raios de luz ou de sol.

E quando olhei para o céu, me deparei com uma estranha massa boleiforme de um azul cintilante e noturno, embora dia, que parecia querer me dizer alguma coisa a respeito das flores, que transitavam no local, oferecendo seu aroma às borboletas pousadas à margem do lago.

Fechei os olhos e, a cada inspiração, sentia como se pequenas luzes fossem se acendendo no interior de meu corpo.

Quando tudo já estava resplandecente, algo, cujas asas eram gelatinas metálicas, tocou a superfície da sola de meu pé esquerdo.

E, ao abrir os olhos, deparei-me apenas com minha imaginação solta dentro de uma tarde chuvosa!

MIATÃ



Botão de Luz

Absorvida contida,

Que em teu frescor

Desabrochará o viço.

E florescendo

Sobressai-te em cor,

Refletindo a Luz

Que a ti gerou.


FAZENDA ALEGRIA

Sentada na sala

A espera de “que”,

Fazendo o que deve

Não deve sequer

Pensar em parar,

Parar de fazer

Aquilo que Deus

Não sabe o “porque”!


FALANDO DE MIM

Um dia nasceu,

Viveu como pode.

Aos poucos cresceu,

Cresceu devagar,

E embora doesse

Não pode chorar.

Talvez não devesse!

Sorria e cantava

(Por dentro chorava)

E todos achavam

Que nunca parava.

De noite sozinha,

Nas noites escuras,

Brincava com lágrimas,

Meditava loucuras.

Sabendo sentir

O que não sabia pensar,

Escrevia de noite

Pro mundo acordar.

E todas as dores,

E todos os rancores,

E todas as mágoas,

E as injustiças,

Apenas chegavam

E lá se instalavam,

Até que dos olhos

Um brilho escorria.

Tentando mudar

Um mundo doente,

É que despertou

Pra querer virar gente.

Sonhou com amores,

Paraísos e cores.

Por isso lutando,

Decepcionou-se,

E se foi tornando

Cada vez mais forte

E também mais sensível.

Abriu-se para o mundo

E com ele oscilava.

Sorria, chorava.

Deu tudo de si

Pro mundo em geral.

Mas sempre pra alguém

Em especial.

Por horas lembrava da humanidade,

Por outras, se queixava da própria verdade.

E sempre tentando,

Apesar dos fracassos,

Passou se encontrando,

Em meio a pedaços.

Queria conhecer

Os segredos da alma,

Do espírito, da mente,

Mas tudo com calma.

Também procurou

Encontrar a alguém,

Que a entendesse

E quisesse bem.

Notou, no entanto,

Que era impossível:

“Nem toda faceta

É accessível”.

Passou provações

Um tanto difíceis.

Pensou em cair

E não mais levantar,

Em ir para o hospício

E por lá ficar.

Notou que as pessoas

Não podiam entender

A intensidade

De todo seu Ser.

Porém procurou amá-las assim,

Mas muitas as vezes

Ouviu-se um “fim”.

Agora sabendo

Não ser conhecida,

Procura entender,

Como é entendida.

Mas às vezes estão

Tão longe da Verdade,

Que acham que tudo

O que faz é maldade.

Procurando esquecer

O que estão pensando,

Prossegue amando;

Por fora sorrindo,

Por dentro chorando,

E um todo sonhando

Em amar alguém

E ser amada.

Em amar a todos

E ser respeitada.

Correndo e pulando

Causou sorrisos,

Falando o pensar,

Fez gente chorar.

Já foi venerada

E também odiada,

Chamada de bruxa,

Chamada de fada.

Mas nunca ouviu

Ninguém que soubesse

De toda verdade

Que nela coubesse.

E assim prosseguiu,

Sem muito entender,

Procurando com a vida

O melhor fazer.

Chegou a pedaços

Em que não sabia mais

Se andava para frente

Ou andava para traz.

Tentou estudar,

Detestando o dever

E até trabalhar,

Mas não só para ter.

Por hora termina

Esta longa estória,

Ainda infinda

Porque vigora.


CAMINHANDO

Quantas pedras removi

Desde que aqui cheguei.

Quanto tempo já perdi

E ainda não te encontrei.


Quero te ver ao meu lado,

Não mais te ver mudo, calado.

Sombra morta e imaginária,

Sem te ver só me atrapalha.


O caminho foi difícil,

Mas eis que aqui cheguei;

Na frente, um precipício,

Se cair lá ficarei.


Quero cair em teus braços,

Esquecer de tempo e espaço.

O elevado caminho trilharmos,

E no percurso... Amarmos.


Só em pensar me fascina,

O quanto poderei te dar.

A idéia me alucina:

Viver para te amar.


Quero levar toda a vida

Trilhando esta subida,

Caminho rumo a eternidade,

Onde o justo não vê maldade.


Até que um dia podermos

Partir desta vida em paz,

Pois aqui aprenderemos

De tudo o que podem simples mortais.


E assim estará cumprida

A nossa missão tão sofrida,

Mas muito compensador será

Viver somente para amar.


LUAR DA LUA

Olha! O luar da Lua nos separa do amor.

Vendo no céu as estrelas, pensando no nosso calor.

Rio, você sabe eu te amo,

E te vendo eu declamo,

Não há no mundo outro igual a ti!

O céu é cheio de estrelas

E também há muitas canções.

Rio cidade alegre

De todos os corações!

(1967)